segunda-feira, 19 de março de 2018

9) Uma assembleia bíblica se reunirá no terreno do “um corpo” e praticará esta verdade com outras assembleias que estão similarmente reunidas

Número Nove

Uma Assembleia Bíblica se Reunirá no Terreno de “Um Corpo” e Praticará Esta Verdade Com Outras Assembleias Que Estão Similarmente Reunidas


                 Na procura por uma assembleia bíblica, também precisamos ver que uma assembleia que se reúne de acordo com a Palavra de Deus não é uma “ilha” sozinha no mar da profissão Cristã. Não há na Escritura algo como uma assembleia local sendo independente – funcionando autonomamente. Uma assembleia bíblica estará reunida no terreno de o “um corpo” de Cristo, e praticará esta verdade com outras assembleias que estão similarmente reunidas nesse terreno (1 Co 12:12-27; Ef. 4:1-4).
                 É triste dizer, mas a Igreja se afastou muito disto. Em vez de reunir-se no terreno de um corpo, se reúne em várias linhas de divisões de acordo com:
                
q  Distinções nacionais – isto é, a Igreja da Inglaterra, a Igreja da Escócia, Holandesa Reformada, etc.
q  Certas ordenanças e doutrinas – isto é, Batista, Anabatista, etc.
q  Formas de direção da Igreja – isto é, Episcopal (dirigida por meio de um sistema de bispos), Presbiteriana (dirigida por um sistema de anciãos e ministros), Congregacionalista (dirigida por meio de voto da congregação), etc.
q  Um homem dotado – isto é, Luther (Luterana), Menno Simons (Menonita), John Wesley (Metodista), etc.

                 Esses partidos sectários tornam a comunhão da Igreja algo mais amplo ou mais estrito do que as Escrituras indicam. Por exemplo, as igrejas nacionais aceitam em sua comunhão todos os que são de uma determinada nação, independentemente de serem salvos ou não. Uma pessoa é cristianizada (batizada) no nascimento e se torna parte dessa organização da igreja. Mas a Bíblia indica que a Igreja é composta somente por crentes verdadeiros, e “a mesa do Senhor” (símbolo do verdadeiro terreno de comunhão Cristã onde a autoridade do Senhor é reconhecida) é somente para membros do corpo de Cristo (1 Co. 10:16,17). Os bebês e os crentes meramente professos (não nascidos de Deus) não têm um lugar nesta comunhão. Por outro lado, as igrejas evangélicas limitam a comunhão da igreja a algo menor do que os membros do corpo de Cristo. Não é suficiente a pessoa ser um Cristão; ele deve ser um membro desta particular organização de igreja. Isso é sectarismo. Se alguém deseja fazer parte das funções dessa sua igreja, ele deve se juntar oficialmente a sua comunhão, mas ao fazê-lo, ele se separa de outros Cristãos em comunhão com outras igrejas. Porque se uma pessoa escolhe se tornar batista, então ele não pode ser presbiteriano. Sua comunhão e atividades na igreja estão restritas aos batistas. Assim, o terreno de tal comunhão é menor do que o corpo de Cristo. Ambos esses princípios de reunião não estão de acordo com a verdade de o “um corpo”.
                 A maioria dos Cristãos vai concordar com a verdade de o “um corpo”, mas, infelizmente eles veem isso meramente como uma doutrina teológica que não tem ramificações práticas em suas vidas de Cristãos em sua eclesiologia. Isto, no entanto, é um erro. As Escrituras indicam que Deus deseja que a verdade de o um corpo seja praticada na maneira na qual os Cristãos se reúnem para adoração, ministério, comunhão e intercomunhão com outras assembleias reunidas da mesma forma. Uma assembleia reunida biblicamente, portanto, procurará expressar a unidade do corpo de Cristo de maneira prática.



O Desejo de Deus Por Uma Unidade visível Entre Seu Povo

                 Sabemos da Palavra de Deus que Ele deseja reunir em um os filhos de Deus que estavam dispersos”, assim haveria “um rebanho” e “um Pastor” (Jo. 11:51,52 – JND; 10:16). Antes de ir para a cruz, o Senhor orou por isso dizendo: “Pai santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste, para que sejam um, assim como Nós”. E novamente, “Para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, o és em Mim, e Eu em Ti; que também eles sejam um em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo. 17:11,21). Enquanto esses versículos no evangelho de João não falam diretamente da verdade da unidade do corpo de Cristo, mas sim da unidade na família, eles mostram que o desejo de Deus para Seu povo é que fossem encontrados juntos em unidade visível na Terra.
                 Vamos voltar novamente àquele versículo em Mateus 18:20, ao qual já olhamos muitas vezes, mas desta vez para focar numa parte diferente do versículo. “Pois onde dois ou três estão congregados [reunidos juntamente – JND] em Meu nome, ali estou Eu no meio deles” (Mt 18:20 - ATB). O ponto que enfatizamos agora é que o Senhor deseja que Seu povo não apenas esteja “reunido” onde Ele estivesse no meio, mas que estivessem “reunidos juntamente”. Ele desejou que todos os que o Espírito de Deus reunisse para o Seu nome, onde quer que estejam na Terra, estivessem "juntos". Ele não queria dizer que todos deveriam estar juntamente reunidos em um único lugar geográfico (como era no Judaísmo – em Jerusalém), mas que eles atuassem juntos nas várias localidades, onde o Espírito os tivesse reunido, para dar uma expressão universal ao fato de que são um. Seu desejo é que houvesse uma comunhão universal dos santos na Terra – para a qual todos os Cristãos são chamados (1 Co 1:9).
                 Agora alguém pode pensar que estamos vendo mais nesta palavra “juntamente” do que se pretendeu, e é verdade que se tivéssemos apenas este versículo (Mt. 18:20) sobre o tema de reunir-se, eles poderiam ter motivo para dizê-lo. Mas quando vamos para o livro de Atos e para as epístolas, e interpretamos a Escritura à luz de todo o teor da revelação Cristã, podemos ver que o Senhor estava indicando a verdade da unidade da Igreja. É apenas aludido aqui em Mateus 18 porque os discípulos ainda não tinham o Espírito, e eles não seriam capazes de compreender isto (Jo 14:25,26, 16:12). O Senhor fez isto em várias ocasiões em Seu ministério, dando apenas a semente de uma verdade e deixando-a para ser desenvolvida por meio dos apóstolos, quando o Espírito viesse.
                 Aprendemos de João 10:16 que o Senhor não quis que Seu povo fosse encontrado em vários rebanhos independentes, mas que houvesse “um rebanho”, independentemente de onde eles pudessem ser encontrados sobre a Terra. Haveria muitas reuniões, mas apenas um rebanho – uma comunhão universal dos santos na Terra. Não era pensamento de Deus que a comunhão fosse algo meramente local, limitado a um único grupo de crentes numa cidade ou vila. Como o evangelho alcançou outras terras e muitos se converteram, haveria naturalmente muitas reuniões espalhadas pela Terra, mas o Senhor queria que ainda assim eles fossem um em comunhão e testemunho.

Caminhar Como É Digno De Nossa Vocação É Expressar Praticamente Que Somos “Um Corpo”
                                                                   
                 Especialmente as epístolas a Efésios e Colossenses revelam a verdade do “grande mistério” de Cristo e da Igreja, que é Seu corpo. A primeira exortação prática na epístola aos Efésios é que andassem “como é digno da vocação” com a qual eles foram chamados (Ef 4:1). E podemos perguntar, como os membros do corpo fazem para “andar como é digno da vocação”? Alguns podem dizer que eles devem fazê-lo vivendo corretamente, como bons cidadãos na comunidade, mas esse não é o ponto dessa passagem da Escritura. Cristãos obviamente deveriam estar preocupados em andar em retidão diante do mundo, mas o contexto dessa passagem indica que a exortação “andar como é digno” da vocação é em vista da revelação do mistério de Cristo e de Sua Igreja – o corpo, o qual Paulo apresentou no capítulo 3. Enquanto ordena aos santos que andem dignos de sua vocação, ele acrescenta “Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo” (Ef 4:2-5). Fica claro, portanto, que a Igreja deve andar digna da vocação do seu chamado, colocando em prática a verdade de que é “um corpo”.
                 Não somos chamados a manter a unidade do corpo, mas sim, “a unidade do Espírito”. Não há exortação na Escritura para os Cristãos manterem a unidade do corpo porque isto é algo vital que Deus mesmo mantém. Isto é o que Ele formou no Pentecostes, unindo os membros do corpo junto a Cristo, a Cabeça no céu, por meio da habitação do Espírito – corpo esse do qual agora somos parte por meio do selo do Espírito (Ef 1:13). Nenhum poder ou inimigo pode quebrar a unidade do corpo; ela é tão forte quanto nosso vínculo em Cristo na salvação. “A unidade do Espírito”, no entanto, é uma unidade prática entre os crentes, a qual somos responsáveis por manter, e é nosso privilégio fazê-lo. O que é então a unidade do Espírito? F. G. Patterson disse, “Manter a unidade do Espírito é se esforçar em manter na prática o que existe de fato”. E o que existe de fato? A passagem segue e nos diz: “há um só corpo”. Outra pessoa disse que a unidade do Espírito é “aquilo que o Espírito está formando para dar uma verdadeira expressão à verdade do um corpo”. Concluímos, portanto, que os Cristãos devem andar dignos da vocação do seu chamado colocando em prática a verdade de que eles são “um corpo”. Esta é a primeira grande responsabilidade coletiva da Igreja. E é a mente de Deus que esta unidade seja expressada universalmente – independentemente de onde esteja o corpo na Terra. Esta unidade não poderia ser meramente algo local porque o corpo não está numa localidade.
                 Para ajudar os membros do corpo de Cristo a andarem juntos em unidade prática, Efésios 4 nos diz que Cristo, a Cabeça do corpo que ascendeu, fez provisão completa aos membros para tal fim (Ef 4:7-16). Ele deu “dons” à Igreja com o propósito de ajudar os santos a entender seus privilégios e responsabilidades no corpo, para que eles andassem dignos da vocação a que foram chamados.
O “Um Corpo” Na Prática

                 Vemos na Escritura várias maneiras pelas quais o corpo de Cristo deve manifestar sua unidade. Isto pode ser visto nas seguintes coisas:

O PARTIMENTO DO PÃO - A maneira mais simples pela qual os crentes podem expressar que eles são parte do “um corpo” é participando do “único pão” no partimento do pão. Ao partimos o pão na Ceia do Senhor estamos confessando o fato de que somos membros do “um corpo”. Paulo disse, “O pão que [nós] partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Pois nós, que somos muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos [nós] participamos do único pão (1 Co 10:16,17 - ATB). Talvez haja um pão sendo comido em muitas assembleias onde quer que os santos sejam encontrados reunidos na Terra, mas a Escritura vê todas as assembleias participando do “único pão”. Paulo disse, “nós” – incluindo-se a si mesmo com os Coríntios, mesmo eles estando em diferentes localidades. Isto mostra que o ato de partir o pão é a confissão do fato universal de que todos os santos fazem parte desse "um corpo”.

ORDEM DA ASSEMBLEIA – Quando olhamos mais atentamente a epístola aos Coríntios, vemos esta verdade funcionando nas circunstâncias práticas da vida da assembleia. Vemos que Paulo procurou manter a uniformidade na doutrina e prática em todas as assembleias em todo o mundo (1 Co 1:2, 4:17, 7:17, 11:16, 14:33,34, 16:1). Sua grande preocupação era que todas as assembleias andassem juntas, e assim tivessem um testemunho único diante do mundo. Quando vemos a Igreja primitiva encontramos esta unidade na prática.
                 Havia um padrão comum de doutrina e prática para todas as assembleias. Paulo pôde dizer, “…como por toda a parte ensino em cada igreja” (1 Co 4:17).
                 Havia um padrão comum de conduta, independentemente da cultura. Paulo pôde dizer, “É o que ordeno em todas as igrejas” (1 Co 7:17).
                 Havia uma maneira comum em reconhecer o senhorio nas orações ou profecias, expressada pelo uso de cobertura na cabeça. A esse respeito Paulo pôde dizer, “nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus”. Eles não tinham tal pensamento ou costume de que as pessoas fariam de outra forma (1 Co 11:16).
                 Havia uma ordem para ministério nas assembleias. O Espírito de Deus estava lá no meio usando os dons que estavam presentes em cada assembleia local para a edificação de todos. Ao delinear aquela ordem, Paulo disse, “como em todas as igrejas dos santos” (1 Co 14:33).
                 Havia uma maneira comum para o uso dos fundos acumulados em suas coletas – os interesses de Cristo e Seu corpo. Paulo disse novamente, “...o mesmo que ordenei às igrejas” (1 Co 16:1). Andando juntos em uma comunhão, eles reconheciam as necessidades uns dos outros e procuravam atendê-las de forma universal (1 Co 16:3; Rm 15:25,26).

A FORMAÇÃO DE NOVAS REUNIÕES – No caso de novos convertidos e na formação de novas reuniões no terreno único de comunhão, vemos que quando o Espírito de Deus começava uma obra em alguns, Ele era cuidadoso em ligá-los a outros no mesmo terreno para que “a unidade do Espírito” fosse mantida. É dito sobre os crentes de Tessalônica, “Porque vós, irmãos, haveis sido feitos imitadores das igrejas de Deus que na Judéia estão em Jesus Cristo” (1 Ts 2:14). Não era que as assembleias na Judeia fossem mais importantes e que as outras assembleias deveriam segui-las. Era simplesmente que o Espírito havia começado Sua obra de reunir almas ao nome do Senhor Jesus primeiramente na Judeia, e como outros foram salvos, esses eram ligados em comunhão prática com o que o Espírito de Deus já havia iniciado.
                 No livro de Atos vemos várias assembleias locais andando juntas na prática para expressar a verdade que elas são um corpo. Isto é visto em Atos 8:4-24. Muitos em Samaria vieram a crer no Senhor Jesus por meio da pregação de Filipe, contudo o Espírito de Deus não os reconheceu como estando no terreno da assembleia até que tivessem recebido o Espírito e tivessem comunhão prática com aqueles que Ele já havia reunido ao nome do Senhor Jesus em Jerusalém. Buscando manter “a unidade do Espírito”, dois representantes desceram de Jerusalém e impuseram as mãos naqueles em Samaria (uma expressão prática de comunhão – Gl 2:9), e por esse meio o Espírito de Deus identificou-Se com eles. C. H. Brown disse, “Deus não permitiu aos Samaritanos que obtivessem reconhecimento oficial como pertencentes à Igreja (assembleia) até que o obtiveram desses emissários que desceram de Jerusalém”. Grande cuidado foi tomado pelo Espírito de Deus para ligar esses crentes “juntos” com aqueles em Jerusalém, para que houvesse uma expressão prática do “um corpo” na Terra, mesmo que esta verdade ainda não tivesse sido revelada.
                 Quando o apóstolo Paulo encontrou um grupo de crentes em Éfeso (At 19:1-6) que não tinha conhecimento de outros com os quais Deus havia trabalhado, ele percebeu que o Espírito de Deus não os tinha reconhecido como estando no terreno divino da assembleia. Eles não foram reconhecidos como estando no terreno de “um corpo” até que tivessem o Espírito e comunhão prática (a imposição das mãos) com aqueles a quem o Espírito já havia reunido. Em referência a este grupo de crentes C. H. Brown também disse: “Eles precisavam de algo. Eles tinham que ser trazidos à mesma unidade que já existia. Eles não poderiam ser reconhecidos enquanto ocupassem um terreno diferente dos demais. Paulo não poderia dizer, ‘Pessoal, vocês não estão no mesmo terreno que o pessoal em Antioquia, ou Jerusalém, mas vocês têm muita verdade e eu simplesmente continuarei com vocês’. Oh não. Ele vai perceber que eles foram trazidos ao mesmo terreno como os demais. Eles foram trazidos para a mesma coisa que foi formada antes mesmo de ouvirem falar dela”. Novamente vemos nisto o cuidado e sabedoria de Deus em manter “a unidade do Espírito” a fim de que houvesse uma expressão prática da verdade do “um corpo”.
                 É digno de se notar que os crentes em Samaria (Atos 8), Antioquia (Atos 11) e Éfeso (Atos 19) não foram chamados de “assembleia” até depois de serem ligados “juntos” em comunhão prática com os apóstolos e os irmãos já reunidos no terreno da assembleia. Antes disso eram meramente chamados de crentes ou discípulos, em uma certa localidade. Depois de eles serem trazidos à comunhão com os apóstolos e os irmãos no terreno da assembleia, nós os encontramos sendo chamados de “a assembleia” em tal e tal lugar (At 9:31, 11:26, 20:17).
                 Além disso, onde quer que a Escritura fale da igreja em um lugar (cidade ou vila), nunca fala dela como igrejas (no plural) de tal e tal lugar, mas simplesmente “a igreja (no singular) de Deus que está em Corinto”, etc. Mesmo que houvesse muitos grupos reunidos em determinada cidade, como em Corinto, eles eram sempre referidos como sendo uma assembleia (1 Co 1:2, etc.). Isto porque a Igreja, em qualquer localidade, é para ser visivelmente uma em testemunho. A Escritura fala, no entanto, de “igrejas” quando se refere a províncias, porque uma província é composta de muitas cidades ou localidades (Gl 1:2, 22; Ap 1:11)

QUESTÕES DE COMUNHÃO ENTRE ASSEMBLEIAS – Vemos o “um corpo” na prática em assuntos administrativos concernentes à comunhão entre assembleias. A Igreja na Escritura usava “cartas de recomendação” (At 18:24-28; Rm 16:1; 2 Co 3:1-3). Essas cartas eram escritas de uma assembleia local à outra, recomendando uma pessoa ou pessoas à comunhão prática da assembleia para qual estavam indo. Esta carta não era para pedir aos irmãos daquela localidade para recebê-lo ou recebê-la à comunhão; a carta anunciava que a pessoa já estava em comunhão, e que a assembleia, para a qual a pessoa estava indo a recebesse como tal. Isto porque uma vez estando a pessoa em comunhão em uma localidade, ela está em comunhão com os santos que estão naquele terreno universalmente. Uma vez que todos os assuntos administrativos que têm a ver com a assembleia devem ser feitos “por boca de duas ou três testemunhas” (2 Co 13:1), dois ou três irmãos da assembleia local de onde a pessoa vem, deveriam assinar a carta.

QUESTÕES DE DISCIPLINA NA ASSEMBLEIA – O “um corpo” na prática é visto também em assuntos entre assembleias relativos à disciplina e excomunhão. Mesmo que possa haver muitos quilômetros entre assembleias, elas são vistas como todas estando em um terreno e em uma comunhão; e assim reconhecem atos administrativos de ligar e desligar umas das outras. Esses ocorrem em várias reuniões locais como ações feitas em nome do Senhor, mas são acatados por todas as assembleias no terreno do um corpo. A competência de cada assembleia local para agir em nome do corpo como um todo vem do fato de que o Senhor está no seu meio sancionando seus atos (Mt 18:18-20).
Em 1 Coríntios 12:27, Paulo indica que a assembleia em Corinto era a representante local do corpo em sua totalidade. Isto seria verdade para todas as assembleias locais, quer fosse Corinto, Éfeso, etc. Isto indica que suas ações administrativamente afetariam a totalidade dos santos. Infelizmente a versão inglesa King James[1] diz, “Ora, vós sois o corpo de Cristo”. Isto é um engano e pode fazer alguém pensar que o corpo de Cristo estava apenas em Corinto – como se fossem os únicos no corpo, ou que cada assembleia local fosse o corpo de Cristo. O corpo de Cristo, obviamente, abrange todos os Cristãos na face da Terra. Deveria dizer: “Ora, vós sois corpo de Cristo, e membros em particular”. Isto transmite mais precisamente a ideia. Observe que ele não diz, “nós”, mas “vós”. Ele estava falando da assembleia local em Corinto. Certamente eles não eram o corpo completo, mas eram do corpo de Cristo – isso é, uma parte do todo. Hamilton Smith ilustra este ponto nos pedindo que imaginemos que um general, se dirigindo a uma companhia local de soldados, dissesse: “Lembrem-se, homens, vocês são Guardas de Elite.” Ele não diria “Vocês são os Guardas de Elite”, porque eles não formavam o regimento inteiro. A ausência do artigo “o” na correta tradução, transmite a verdadeira ideia de que os Coríntios eram a expressão local do corpo de Cristo na totalidade. Isto os fez competentes para agirem em nome do corpo, como um todo, em assuntos administrativos.
                 Se uma assembleia local tiver de tomar uma decisão de ligar colocando alguém fora de comunhão, o corpo inteiro age em comunhão com aquela assembleia local e reconhece a ação, para que, a pessoa “colocada fora” seja considerada como “fora” em outras reuniões também – não somente na localidade onde reside. Vemos isso em 1 Coríntios 5:13, onde a assembleia local em Corinto tinha que colocar para fora do seu meio aquela pessoa iníqua. Mas 2 Coríntios 2:6 nos diz que a “repreensão” ou “censura” feita pela assembleia Coríntia foi “feita por muitos”. O muitos aqui refere-se ao corpo como um todo – o conjunto dos santos universalmente (nota de rodapé da versão J. N. Darby). Portanto o ofensor é levado a sentir a repreensão mais do que apenas por sua assembleia local. Não estamos dizendo que o homem em questão foi realmente a outras localidades e sentiu a repreensão deles, mas a realização daquela ação é expressada universalmente pelo corpo como um todo. Se uma pessoa teve que ser colocada fora de comunhão numa localidade específica, ele foi considerado como fora de comunhão em todos os lugares na Terra, porque o que é feito em nome do Senhor numa assembleia local afeta o todo na prática.
                 Mateus 18:18 confirma isto. O Senhor disse: “tudo o que ligardes na Terra...”. Ele não especificou onde na Terra porque as ações da assembleia não estão restritas a nenhuma localidade. Embora uma decisão possa ser tomada numa determinada localidade, ela é feita em nome do corpo como um todo e está ligada em toda a Terra. Não há na Escritura algo como tomar uma decisão de ligação que se aplique apenas a uma certa localidade. Neste versículo, o Senhor está simplesmente dizendo que se uma assembleia toma uma decisão em Seu nome, Ele a reconhecerá. Se o céu a reconhece, então toda a Terra deveria reconhecê-la também. Todos no terreno da Igreja de Deus devem reconhecer aquela ação e acatá-la. Fazendo isso, a assembleia, como um todo, expressa a verdade de ser “um corpo”.
                 Da mesma forma, quando ocorre o encerramento da ação de ligação, a assembleia local, onde a ação foi feita, suspende a censura e (administrativamente) perdoa a pessoa arrependida, e o corpo inteiro acompanha, expressando também aquele perdão. Isto é corroborado nas observações de Paulo em 2 Coríntios 2:7-11. Enquanto Paulo tinha autoridade para agir apostolicamente nessa questão, se fosse necessário, ele preferiu esperar até que a assembleia local em Corinto agisse, para manter assim a “unidade do Espírito”. Ele disse, E a quem [vós] perdoardes alguma coisa, também eu”.
                 Paulo vai adiante para dizer, para que [nós] não sejamos vencidos por Satanás” (2 Co 2:10). Ele não disse “para que vós não sejais...” – os quais seriam os Coríntios: ele disse “nós”. Isto indica os santos como um todo em “um corpo”. Paulo sabia que Satanás estava procurando dividir as assembleias em seu testemunho universal de o um corpo, e esta delicada questão entre assembleias era onde ele trabalharia. No entanto, Paulo – representando amplamente os santos – indica como temos de agir nessas questões de desligar um julgamento da assembleia. Apesar de que ele (e talvez outros) saber que o homem estava arrependido e deveria ser restaurado à comunhão, mesmo assim não foi adiante da assembleia local em Corinto e agiu independente nesta questão – já que, sendo um apóstolo, ele tinha autoridade para fazê-lo. Em vez disto, esperou que primeiro os Coríntios agissem na questão; e então ele e o resto dos santos de todos os lugares, os seguiriam. Aprendemos por este exemplo que não devemos agir independentemente, mas em acordo com a assembleia local que promove a ação.
                 Vemos um exemplo disto em Atos 15, quando problemas surgem entre os santos em Antioquia por conta de mestres judaizantes de Jerusalém perturbando os santos com sua doutrina, misturando lei e graça. Novamente, aprendemos algumas valiosas lições de como Deus gostaria que lidássemos com problemas entre assembleias. A primeira coisa que encontramos é que eles determinaram levar o problema àqueles em Jerusalém. Ora podemos pensar que a razão porque eles levaram o assunto à Jerusalém foi porque era o centro de Deus para lidar com problemas da assembleia, como se fosse um lugar central na Terra (uma sede) ao qual as assembleias devessem levar seus problemas. Mas a assembleia em Antioquia não foi a Jerusalém porque eles não se sentiram qualificados para lidar com o problema. Se isto fosse um simples caso onde eles quisessem julgamento apostólico na questão, eles poderiam ter apelado aos apóstolos Paulo e Barnabé que estavam lá com eles em Antioquia. Quem a não ser o apóstolo Paulo era mais qualificado a lidar com essas questões a respeito da lei e graça? Enquanto é verdade que eles valorizavam o discernimento dos apóstolos e líderes em Jerusalém e desejavam seu julgamento na questão, havia uma razão mais profunda do porquê eles a levaram para lá; foi Procurando guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef. 4:3 - ATB). O fato é que os mestres judaizantes que estavam perturbando os santos em Antioquia tinham vindo de Jerusalém (v. 24). Assim, para não quebrar a unidade prática entre as duas assembleias, os irmãos de Antioquia não lidariam com o problema de forma independente, mas em vez disso, levariam o problema à sua fonte. Isto mostra que a Escritura não sustenta a ideia de assembleias agindo autonomamente.
                 Isto nos ensina que, se alguns de determinada assembleia local visitam outra assembleia e cometem lá um erro, de modo requeira ação corretiva ou disciplinar, essa assembleia não deve agir de forma independente tomando uma ação restritiva. Eles devem trazem isso à assembleia local de onde o causador do problema veio, para que eles possam lidar com isto. Então “a unidade do Espírito” seria mantida no vínculo da paz.
                 É digno de nota que quando eles foram para Jerusalém com essa questão, e pararam em várias assembleias no caminho, eles não preocuparam aquelas reuniões espalhando o problema entre eles. Apenas falaram de coisas que causariam “grande alegria” entre os santos, apesar de eles estarem, sem dúvida, profundamente pesarosos com aquela questão que atacava o núcleo da posição Cristã em graça. Isto nos ensina a importância de não espalhar desnecessariamente os problemas da assembleia local. Nosso adversário, o diabo, poderia se apossar disso e usá-lo para causar problemas entre os santos.

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Resumo: Uma assembleia bíblica não é autônoma, mas funciona em comunhão com todas as outras assembleias no verdadeiro terreno da Igreja, porque se encontra no terreno do “um corpo”. Andando juntos em unidade prática, e assim expressando a verdade do “um corpo”, o mundo deveria ver várias reuniões de Cristãos no mundo como “a carta de Cristo” (2 Co 3:3). Note: a palavra “carta” está no singular; não é “cartas”, como muitas pessoas citam incorretamente. Isto aponta para a unidade que deve existir no testemunho da Igreja.

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                 Hoje em dia, por conta da irremediável ruína que entrou na Cristandade, não é possível praticar a verdade do “um corpo” com a Igreja toda. A maioria dos membros do corpo de Cristo sequer conhece a ordem de Deus para os Cristãos se reunirem juntos para adoração e ministério no terreno de um corpo. Eles estão bem felizes em permanecer em seus vários grupos de igreja denominacionais e não denominacionais, na condição dividida da Cristandade. Portanto, é simplesmente impossível praticar a verdade do um corpo com toda a Igreja hoje.
                 Quando uma pessoa compreende isto pela primeira vez, pode ser devastador. Podemos estar inclinados a levantar nossas mãos em sinal de frustração e desistir. Mas não é necessário nos desesperarmos. Deus antecipou completamente o estado de ruína que se desenvolveria na Igreja e fez provisão para esses dias de fracasso, para que os crentes que são exercitados sobre esta verdade sejam capazes de praticá-la. No décimo e último ponto do nosso perfil de assembleia reunida biblicamente aprenderemos que a verdade do um corpo pode hoje em dia ser praticada, embora apenas em um testemunho remanescente.



[1] (N. do T.: e algumas em Português também)

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