sábado, 17 de março de 2018

7) Uma assembleia bíblica terá aqueles que agem em cuidado responsável na assembleia

Número Sete

Uma Assembleia Bíblica Terá Aqueles Que Agem em Cuidado Responsável em Seu Meio


                 Em uma assembleia reunida biblicamente haverá liberdade para vários irmãos exercitarem seus dons e sacerdócio, mas não devemos pensar que na assembleia não há governo. As Escrituras indicam que existem certas regras (liderança administrativa) na Igreja. Na assembleia reunida biblicamente haverá aqueles que tomarão a liderança administrativa para assegurar que a santidade e a ordem sejam mantidas, porém isso não será de uma maneira formal.
                 A maneira usual de o Senhor guiar uma assembleia local em suas responsabilidades administrativas é por meio dos que “tomam a liderança” (1 Ts 5:12-13; Hb 13:7, 17, 24; 1 Co 16:15-18; 1 Tm 5:17 – JND). Essa frase na versão King James da Bíblia e na versão de João Ferreira de Almeida foi traduzida como “aqueles que presidem sobre vós”, mas não é precisa, nos levando a pensar que exista uma casta especial de homens que esteja “sobre” o rebanho – o clérigo. É evidente que essas versões da bíblia estiveram nas mãos de clérigos que de alguma forma influenciaram os tradutores de alguma forma. O uso da palavra “bispo” é outro exemplo. Ela deveria ter sido traduzida como “supervisor” ou “supervisão”.
                 Tomar “a liderança” nessa função não significa liderar no ensino ou na pregação pública, mas nas questões administrativas da assembleia. Confundir essas duas coisas é entender de forma equivocada a diferença entre dom e ofício, que são duas esferas distintas na casa de Deus. Alguns daqueles que “tomam a liderança” podem não ensinar publicamente, mas é muito bom e útil quando podem fazê-lo (1 Tm 5:17). Estes homens devem conhecer os princípios da Palavra de Deus e serem capazes de expô-los para que a assembleia compreenda o curso da ação que Deus gostaria que fosse tomado em algum assunto particular (Tt 1:9). Estes homens não se nomeiam a si mesmos para o desempenho deste papel, nem mesmo são constituídos pela assembleia – como é frequente na Igreja atualmente – mas eles são levantados pelo Espírito Santo para este trabalho (At 20:28). A assembleia irá reconhecê-los pelo seu cuidado devotado aos santos, pelo seu conhecimento dos princípios das Escrituras e pela demonstração de seu bom discernimento.
                 Há três palavras usadas nas epístolas para descrever estes líderes responsáveis na assembleia local.

q   Primeiramente, “anciãos” (Presbuteroi). Essa palavra se refere àqueles avançados em idade – implicando maturidade e experiência. No entanto, nem todos os homens mais velhos da assembleia necessariamente atuam no papel de líderes (1 Tm 5:1; Tt 2:1-2).

q   Em segundo lugar, “bispos” ou supervisores (Episkopoi). Essa palavra se refere ao trabalho que eles fazem – pastoreando o rebanho (At 20:28; 1 Pe 5:2), cuidando das almas (Hb 13:17) e admoestando (1 Ts 5:12).

q   Em terceiro lugar, “guias” ou líderes (Hegoumenos). Isto se refere à capacidade espiritual que possuem para liderar e guiar os santos.

                 Os pontos acima mencionados não se referem a três diferentes posições na assembleia, mas sim a três aspectos de um trabalho que esses homens fazem. Isto pode ser visto pela maneira como o Espírito de Deus usa os termos alternadamente – compare Atos 20:17 com 20:28 e Tito 1:5 com 1:7. No livro de Apocalipse os que possuem esta função são chamados de “estrelas” e de “anjo da igreja [local]” (Ap 1 a 3). Como “estrelas” eles devem ser testemunhas da verdade de Deus (dos princípios de Sua Palavra) como portadores de luz na assembleia local, trazendo luz sobre os vários assuntos enfrentados pela assembleia. Isso é ilustrado em Atos 15. Após ouvir sobre os problemas que estavam atribulando a assembleia, Pedro e Tiago trouxeram luz espiritual à questão. Tiago aplicou um princípio da Palavra de Deus e julgou da forma como ele acreditava que o Senhor desejaria que eles fizessem (vs. 15 a 21). Como “o anjo da igreja”, eles agem como mensageiros que levam a mente do Senhor à assembleia na resolução do problema. Isso também é ilustrado nos versículos 23 a 29.
                 Como já foi dito, não há nomeação oficial de anciãos/bispos/guias para este trabalho hoje, como houve na Igreja primitiva (At 14:23; Tt 1:5), porque não há apóstolos (ou pessoas delegadas pelos apóstolos) na Terra para ordená-los. Isso não significa que o trabalho de supervisão não possa continuar. O Espírito de Deus continua levantando homens piedosos para exercerem a supervisão nas assembleias reunidas biblicamente (At 20:28). Esses certamente seriam aqueles que um apóstolo ordenaria se vivesse em nossos dias.
                 Na carta de despedida de Paulo aos anciãos de Éfeso, ele fornece uma descrição do caráter e trabalho de um ancião/bispo/guia, usando a si mesmo como exemplo (At 20:17-35). Primeiramente ele destaca o que os mesmos devem ser:

q  Coerentes (v. 18);
q  Humildes (v. 19);
q  Compassivos (v. 19);
q  Perseverantes (v. 19);
q  Fiéis (v. 20);
q  Comprometidos (vs. 21-24);
q  Enérgicos (ou decididos) (vs. 24-27).

                 Na sequência ele destaca o que eles devem fazer:

q  Pastorear o rebanho (v. 28); isto envolveria ser um modelo aos santos (1 Pe 5:3), ensinando-os (1 Tm 3:2; Tt 1:9), guiando-os e aconselhando-os, etc. (Hb 13:17);
q  Vigiar contra duas ameaças: lobos adentrando e homens atraindo discípulos após si (vs. 29-31);
q  Utilizar os recursos dados por Deus para aquele trabalho – oração e a Palavra de Deus (v. 32);
q  Exercer o ministério de dar (vs. 33-35).

A Manutenção Da Santidade e da Ordem

O propósito do governo na Igreja é manter a santidade e a ordem na casa de Deus. Isso tem a ver, principalmente, com duas coisas:

q  O cuidado com o que adentra a assembleia. Isso envolve princípios de recepção.
q  O cuidado com o que (ou quem) está na assembleia. Isso envolve disciplina na Igreja, caso necessário.

Princípios de Recepção

                 Importar-se com a glória de Deus, com relação ao que trazemos à comunhão, é algo que praticamente não existe na Cristandade hoje. Mesmo assim, a Bíblia ensina que a assembleia deve ter o cuidado em não trazer alguém à comunhão que possa estar envolvido com o mal, seja esse mal moral, doutrinal ou eclesiástico. O princípio é simples. Se uma assembleia local é responsável por julgar o mal em seu meio, excomungando os que o praticam (1 Co 5:12), então é natural que ela deva ser cuidadosa com o que ou quem ela introduz em seu meio.
                 Tem sido corretamente dito que a assembleia local não deve possuir uma comunhão aberta e nem deve ter uma comunhão fechada, mas sim, uma comunhão vigiada. A assembleia deve receber à mesa do Senhor todos os membros do corpo de Cristo a quem a disciplina bíblica não impeça. Se, por um lado, todo Cristão possui o direito de estar à mesa do Senhor, por outro nem todo Cristão possui necessariamente o privilégio de estar nela, pois este privilégio pode ser perdido por seu envolvimento com alguma forma de mal.


Quem Decide Quem Deveria Estar em Comunhão?

                 É importante entender que os irmãos na assembleia local não decidem o que é adequado à mesa do Senhor e o que não é. A Palavra de Deus decide. A razão é que a mesa não é dos irmãos; ela é “a mesa do Senhor” (1 Co 10:21). As preferências pessoais dos que fazem parte da assembleia não têm nada a ver com recepção. A Palavra de Deus decide tudo. Se não existir um motivo bíblico para recusar a alguém a comunhão à mesa do Senhor, tal pessoa deve ser recebida. Se um crente já tiver sido batizado, for são na fé e piedoso em seu andar, não existe motivo para ser rejeitado. O nível de conhecimento das Escrituras não é um critério neste sentido. Ainda que seja um crente limitado em seu conhecimento, as Escrituras dizem: “Ora, quanto ao que está enfermo [fraco] na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas” (Rm 14:1).
                 Todavia, nem sempre se pode determinar de imediato se alguém é são na fé e piedoso em seu andar. Quanto maior a confusão no lugar de onde a pessoa tiver saído, seja do meio Cristão ou do mundo, maior a dificuldade de se determinar essas coisas. Se for este o caso, a sabedoria indicará que a assembleia deveria pedir à pessoa que tem o desejo de estar em comunhão que aguarde. Isto não significa que a assembleia esteja afirmando que tal pessoa tenha alguma associação com o mal. Poderia até ser o caso, porém os irmãos simplesmente não sabem, e devem esperar até que estejam convencidos de não ser este o caso, pois eles são, em última análise, os responsáveis diante de Deus pelas pessoas que são recebidas em comunhão. As Escrituras ensinam: “A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios” (1 Tm 5:22). Este versículo fala da comunhão pessoal com alguém numa base individual, mas o princípio é amplo o suficiente para guiar os santos na comunhão coletiva da assembleia à mesa do Senhor. Alguém maduro e piedoso não se sentirá ofendido com isso, pois certamente nenhum Cristão piedoso iria querer que a assembleia violasse um princípio bíblico. Na verdade, todo esse cuidado deveria dar a ele a confiança de estar entrando em uma comunhão de Cristãos onde existe a preocupação com a glória do Senhor e a pureza da assembleia.

Os Testemunhos Pessoais Não Seriam Suficientes?

                 Outro importante princípio que a assembleia, funcionando de maneira bíblica, vai usar é que não fará coisa alguma pela boca de uma testemunha. Tudo o que se refere à assembleia deve ser feito de acordo com este princípio: “Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida” (2 Co 13:1 – ARA). Confira também o que diz em João 8:17 e Deuteronômio 19:15. Por esta razão a assembleia não deve receber pessoas com base no testemunho delas mesmas. As pessoas naturalmente costumam dar um bom testemunho de si mesmas, como as próprias Escrituras afirmam: “Todos os caminhos do homem são limpos aos seus olhos” (Pv 16:2). E: “Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória” (Jo 7:18). Por isso pode ser preciso pedir a uma pessoa que deseja entrar em comunhão que aguarde até que outros da assembleia a conheçam melhor, e então a assembleia pode recebê-la com base no testemunho de outros.
                 Este é um princípio que encontramos por toda a Escritura. Até mesmo o Senhor Jesus Cristo, o Senhor da Glória, sujeitou-Se a este princípio quando Se apresentou aos Judeus como seu Messias. Ele disse; “Se Eu testifico de Mim mesmo, o Meu testemunho não é verdadeiro [válido] (Jo 5:31). Em seguida Ele continuou apresentando quatro outros testemunhos que comprovavam Quem Ele era: João Batista, Suas obras, Seu Pai e as Escrituras (Jo 5:32-39). Apesar dos vários testemunhos que testificavam d’Ele como sendo o Messias, o Senhor advertiu aos judeus de que chegaria um tempo quando a nação, receberiam um falso messias (o anticristo) sem testemunhos. Ele disse: “Se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” (Jo 5:43). Assim o Senhor reprovou a prática de se receber alguém com base em seu próprio testemunho apenas.
                 Atos 9:26-29 nos dá um exemplo do cuidado que a Igreja primitiva tinha ao receber alguém à comunhão. Quando Saulo de Tarso foi salvo ele quis entrar em comunhão com os santos em Jerusalém, porém foi rejeitado. Apesar de ser verdade tudo o que ele deva ter dito aos irmãos em Jerusalém sobre sua vida pessoal, mesmo assim ele não foi recebido com base em seu próprio testemunho. Foi só quando Barnabé levou Saulo consigo e o apresentou aos irmãos, testificando de sua fé e caráter, de modo que havia o testemunho de dois homens, que os irmãos o receberam. Daquele momento em diante Saulo “andava com eles em Jerusalém, entrando e saindo” (At 9:28).

O Teste Da Profissão Da Pessoa

                 Outro princípio para se receber alguém é que existe a necessidade de se colocar à prova a profissão de fé da pessoa. Se alguém diz ser Cristão, é preciso que prove isso deixando de lado todo pecado conhecido. Em 2 Timóteo 2:19 diz que “qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade”. Veja também Apocalipse 2:2 e 1 João 4:1. Se essa pessoa não se apartar da iniquidade, ele não é verdadeiro em sua confissão de fé. Isto é ainda mais importante em uma época de ruína e abandono do testemunho Cristão, quando abundam doutrinas e práticas perniciosas de todos os tipos.
                 Se uma pessoa sustenta má doutrina, está claro que a assembleia não deve recebê-la, pois se o fizer ficará em comunhão com o mau ensino. (Compare 2 Jo 9-11). Não falamos aqui das diferenças que as pessoas possam ter a respeito de assuntos como o batismo, por exemplo, mas de coisas que digam respeito aos fundamentos da fé Cristã. As Escrituras dizem: “Ora, o Deus de paciência e consolação vos conceda o mesmo sentimento uns para com os outros, segundo Cristo Jesus. Para que concordes, a uma boca, glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para glória de Deus” (Rm 15:5-7). Se alguém que professasse má doutrina fosse recebido, como se poderia dizer que a assembleia estaria concorde e “a uma boca” glorificando a Deus? Os irmãos na assembleia estariam dizendo uma coisa e essa pessoa dizendo outra. O resultado seria confusão. O apóstolo Paulo disse aos Coríntios: “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer” (1 Co 1:10).

Associações Eclesiásticas

                 Paciência e discernimento são precisos para identificar o mal eclesiástico em alguém. Existe uma diferença entre alguém estar associado ao erro clerical por ignorância e uma pessoa ativamente envolvida e promovendo tal erro. Um crente que desconhece a ordem bíblica para a adoração e o ministério Cristão pode vir à assembleia e querer partir o pão à mesa do Senhor vindo de uma denominação criada por homens e onde seja adotada uma ordem clerical. Ainda que essa pessoa esteja associada ao erro eclesiástico, ela não está nesse ponto, no mal eclesiástico. E se tal pessoa for conhecida por sua piedade no andar e professar sã doutrina, não deveria haver impedimento para que ela partisse o pão, mesmo que não tenha se desligado formalmente de sua associação com aquela denominação.
                 A grande questão é: “quando uma associação inconsciente com o erro eclesiástico se torna um mal eclesiástico?” Cremos que a resposta é quando a vontade da pessoa está envolvida nisso. Para detectar essa vontade é preciso que a assembleia tenha um discernimento sacerdotal. Em casos assim a assembleia precisa depender muito do Senhor para conhecer a Sua mente a respeito do assunto. Em condições normais os irmãos deveriam permitir que essa pessoa partisse o pão, esperando e confiando que Deus estaria trabalhando em seu coração e que ela, após ter participado da ceia do Senhor, iria abandonar aquele terreno em que tinha estado antes, e continuar com aqueles reunidos ao nome do Senhor.
                 Esse princípio é visto na passagem em 2 Crônicas 30 e 31. Ezequias chamou o povo de Judá, e os das dez tribos dispersas, para virem ao divino centro em Jerusalém e participarem da Páscoa. Ele não insistiu que eles destruíssem seus ídolos antes de virem. Depois de que vieram e apreciaram a Páscoa em Jerusalém, eles voltaram para casa e destruíram seus ídolos e imagens. (Não estamos insinuando que as denominações criadas pelos homens na Cristandade sejam comparáveis à idolatria. Estamos falando apenas do princípio de uma pessoa se desconectando de um erro religioso anterior). O que é interessante notar neste caso é que Ezequias não lhes falou para agirem assim! Aquilo foi uma resposta vinda de seus corações pelo simples fato de terem estado na presença do Senhor em Jerusalém. Todavia, se alguém deseja continuar indo a ambos os lugares regularmente, isto não deveria ser permitido. Como assinalou J. N. Darby, “Pontos de vista eclesiásticos diferentes não representam razão suficiente para colocar fora uma alma. Mas se alguém deseja estar entre os irmãos um dia e no próximo entre as seitas, eu não deveria permitir isso, e não deveria receber tal pessoa, pois, ao invés de usar da liberdade que pertence a ela para apreciar a comunhão espiritual entre os filhos de Deus, ela avança na pretensão de mudar a ordem da casa de Deus e perpetuar a divisão dos Cristãos.” Fica claro que uma pessoa assim não estaria sendo honesta com nenhuma das posições. Darby também afirmou que a degradação e a corrupção aumentam cada vez mais no testemunho Cristão, ficando cada vez mais difícil colocar em prática este princípio. À medida que os dias se tornarem mais sombrios será necessário um discernimento cada vez maior. Em nossos dias esse princípio raramente tem acontecido.

O Visitante Ocasional

                 W. Potter disse: “Eu não me sinto feliz tendo que pensar que às vezes a mesa do Senhor se torna, por assim dizer, uma conveniência. Por exemplo, alguns entre nós têm parentes que os visitam. Eles são membros de alguma denominação, mas vêm com seus parentes à reunião e desejam participar conosco da Ceia ‘simplesmente como Cristãos’. A mim me parece que uma consciência correta e íntegra os levaria às suas igrejas. Eles simplesmente vêm pela ocasião da visita, porque eles não se importam em se separarem dos amigos por um momento. Nesse ponto eu não estou feliz”.
                 “Parece-me que, em tais casos, a nossa responsabilidade não é a de recusar a participação deles, mas de colocá-los a par da razão pela qual estamos reunidos, que a nossa posição é um protesto prático contra a falta de base bíblica das denominações, e que eles, ao participarem conosco no ato da Ceia naquele momento, identificam-se conosco nessa posição, que é de protesto contra aquilo que eles estão conectados e defendem confessadamente. Estariam eles dispostos, mesmo que por um momento, a se identificarem conosco? Onde as almas estão exercitadas, é outra questão, e parece-me que alguém se sentiria realmente muito à vontade em sentar-se à mesa com eles”.
                 “Não é o exercício da alma o que importa? Assim nenhuma regra pode ser estabelecida. Certamente não viria do Senhor a exigência de que uma alma piedosa e exercitada, conectada com qualquer uma das, por assim dizer, denominações tradicionais, cortasse seus laços com a sua igreja, antes que nós permitíssemos que participasse conosco à Mesa. Parece-me que fazer isso é negar praticamente o terreno sobre o qual estamos reunidos”.
                 “Em relação às reuniões que se professam estar reunidas ao nome do Senhor, eu acredito tratarem-se totalmente de outra questão. Eles professam estar reunidos ao Seu nome, e devem saber porque estão separados de nós e nós deles. Se alguns deles têm o desejo de participar da Mesa conosco, as suas razões para isso devem ser examinadas e medidas tomadas de acordo com o que for encontrado. Há sempre mais conhecimento entre eles, com relação à verdade divina, do que com os santos nas denominações, e creio que, de modo geral, eles não são tão ignorantes das causas das divisões entre nós, como alguns deles, às vezes, fazem-nos pensar”.
                 Em Israel havia “porteiros” e “guardadores da entrada” que cuidavam dos portões e guardavam as portas da casa de Deus (1 Cr 9:17-27). O dever deles era deixar entrar os que deveriam estar dentro e recusar a admissão dos que deveriam ser mantidos fora. Da mesma forma hoje, em uma assembleia nos moldes bíblicos, haverá este tipo de cuidado.
                 Outra figura no Antigo Testamento demonstra esse cuidado no recebimento. Quando a cidade de Jerusalém, o centro divino na Terra onde o Senhor colocou Seu nome, foi reconstruída nos dias de Neemias, havia ao seu redor grande perigo por conta dos inimigos. Consequentemente, eles não abriam as portas para permitir que as pessoas adentrassem à cidade até que “o Sol aquecesse” [literalmente “meio-dia”] (Ne 7:1-3.). Eles se certificavam de que não havia nenhum vestígio de “escuridão” ao redor antes de receberem as pessoas na cidade. Até aquele momento, os que queriam entrar tinham que esperar. Enquanto a escuridão na Cristandade aumenta nestes últimos dias, cuidado deste tipo é necessário no recebimento.

Disciplina Na Igreja

                 Uma assembleia bíblica também exercerá disciplina quando necessário. Se os anciãos que cuidam do rebanho virem uma pessoa com um mau comportamento, de alguma forma, eles vão agir para corrigi-la (Hb 13:17). Isto será feito para a glória do Senhor, mas também em amor para com o indivíduo que está se extraviando. Eles vão se sentir responsáveis por agir a este respeito, porque sabem que a Palavra de Deus diz: “Livra os que estão destinados à morte, e os que são levados para a matança, se os puderes retirar. Se disseres: Eis que o não sabemos: porventura aqu’Ele que pondera os corações não o considerará? e aqu’Ele que atenta para a tua alma não o saberá? não pagará Ele ao homem conforme a sua obra?” (Pv 24:11-12). Como vigias sobre o muro, eles são responsáveis por “tocar a trombeta” para soar um alerta quando veem algum perigo. Ao fazê-lo, eles livram suas próprias almas, porque Deus os considera responsáveis (Ez 33:1-6; Hb 13:17).
                 Existem três principais áreas de preocupação em que um indivíduo pode se tornar falho. Em cada caso, os que cuidam do rebanho e são responsáveis por manter a santidade e a ordem na casa de Deus vão tentar lidar com o problema antes que ele fique fora de controle. Se eles puderem corrigir o curso que uma pessoa está percorrendo antes que atinja um ponto em que a assembleia deverá colocá-la fora da comunhão, terão feito um bom trabalho e terão livrado essa pessoa de muita dificuldade e sofrimento em sua vida (Tg 5:19-20). Isso pode ser feito por qualquer um que se preocupe com a pessoa, mas os anciãos/supervisores são os principais responsáveis por este trabalho. Por conseguinte, eles vão tomar certas ações preliminares para com a pessoa no erro, dependendo do rumo no qual a pessoa toma. Isso mostra que a maior parte de toda a disciplina da Igreja deve ser exercida para com uma pessoa que ainda está em comunhão.
                 Os cenários seguintes dão o procedimento geral. Isso é reconhecidamente difícil de delinear porque essas coisas não podem ser organizadas como se estivéssemos consultando um manual ou um livro; cada caso deve ser tratado em seu próprio mérito, e não existem dois casos idênticos. A Escritura pressupõe que aqueles que fazem este trabalho são pessoas espirituais que irão lidar com esses casos com discernimento “espiritual” (Gl 6:1; 1 Co 2:15).

UMA PESSOA MUNDANA - (falha em seu andar). Isso pode incluir muitas desordens morais nas quais uma pessoa poderia estar envolvida (1 Co 5:11, etc.).

q  Aqueles que se importam com o rebanho vão tentar “restaurar” a pessoa surpreendida em alguma falta, com espírito de mansidão, indo a ela com a Palavra de Deus (Gl 6:1; Jo 13:14). Eles procurarão alcançar o coração e a consciência da pessoa de uma forma gentil e carinhosa, num esforço de convertê-la do curso que possam se encontrar.
q  Se isso não alcançar a pessoa, o próximo passo será o de “admoestar” a pessoa em uma repreensão privada (1 Ts 5:14). Isso seria mais firme e direto.
q  Se a pessoa persiste em seu curso, mas não está em um pecado em particular que exija a excomunhão, aqueles que assumem a liderança na assembleia podem encorajar os santos a se “afastarem” da pessoa para que sua consciência seja tocada, assim, ela poderá julgar-se a si mesma (2 Ts 3:6-15).
q  Se um pecado em particular se torna manifesto e exige a excomunhão, a assembleia deve então agir executando um julgamento vinculativo para "tirar" essa pessoa que está entre eles. (Mt 18:18-20; 1 Co 5:11-13).

UMA PESSOA HETERODOXA - (falha em doutrina). Esta seria uma situação em que uma pessoa adota doutrinas errôneas consideradas heterodoxas [de opinião contrária] (1 Tm 4:1; 2 Jo 9).

q  Os responsáveis na assembleia tentarão corrigir o indivíduo de seu erro e “adverti-lo” a não ensinar outra doutrina que não seja a ortodoxa [de opinião igual] (1 Tm 1:3).
q  Se a pessoa insiste em ensinar suas ideias errôneas na assembleia, a assembleia é responsável por “julgar” os seus ensinamentos e chamá-la a ficar em silêncio nas reuniões (1 Co 14:29). Isso poderia ser chamado de “a disciplina do silêncio”.
q  Se as doutrinas da pessoa são de natureza blasfemas, tocando a Pessoa e a obra de Cristo, a assembleia deverá excomungá-la. O apóstolo Paulo fez isso com Himeneu e Alexandre, entregando-os a Satanás, para que “aprendam a não blasfemar” (1 Tm 1:20). A assembleia não pode entregar alguém diretamente a Satanás como um apóstolo podia fazer, mas pode colocá-la fora de sua comunhão, onde Deus julga.
q  Se os santos entram em contato com tal pessoa na profissão Cristã em geral, eles devem se “afastar” dos tais que têm ensinamentos errôneos e que pervertem a fé dos santos (2 Tm 2:16-19).

UMA PESSOA QUE CAUSA DIVISÃO (herege em espírito). Esta é uma pessoa que cria uma partição na assembleia, tendo um espírito partidário em alguma causa. Este é mais do que um mal eclesiástico e, geralmente, é o mais difícil de detectar-se entre todos os males. J. N. Darby disse: “Impiedade eclesiástica é sempre a pior.” Uma vez que isso é prejudicial para a saúde da assembleia, deve ser tratado.

q  Os irmãos devem identificar e “evitar” aqueles que provocam divisões e escândalos na reunião (Rm 16:17-18). Nota: Isso não quer dizer: “note os que seguem em divisões”, mas aqueles que “causam” divisões. Isto significa que devemos distinguir entre os líderes e os liderados quando um espírito de partidarismo surge na assembleia.
q  Aqueles que levantam questões que dividem os santos muitas vezes fazem isso liderando uma rebelião contra os que tomam a liderança na assembleia. Ao que peca por trazer acusações infundadas contra um ancião, a assembleia deve “repreendê-lo na presença de todos” (1 Tm 5:19-20). A repreensão pública está ordenada para quando alguém divide os santos em linhas partidárias (Gl 2:12-14).
q  Se a pessoa continua a propagar suas questões e a dividir o rebanho, a assembleia tem motivos para excomungá-la. Semear a discórdia entre os irmãos é uma “abominação” ao Senhor (Pv 6:16-19), e algo que é abominável ao Senhor não deve estar em comunhão à Sua mesa. Por conseguinte, a pessoa deve ser colocada fora.
q  Se alguém na assembleia se encontrar com um líder de uma divisão colocado fora de comunhão ou que tenha saído com o seu grupo, eles devem “admoestá-lo” mais uma vez (Tt 3:10). Se houver qualquer outro encontro com esse líder, devem “evitá-lo”, porque ele está pervertido (Tito 3:10).



Três Razões Para Excomunhão

                 Existem três razões principais porque a assembleia deve colocar fora pessoas más.

1)        A Glória do Senhor - A assembleia deve ter cuidado de não permitir que o nome do Senhor seja associado ao mal diante do mundo. Quando os coríntios agiram para a glória do Senhor e colocaram para fora a pessoa imoral que estava no meio deles, o apóstolo Paulo escreveu os elogiando e dizendo: “Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio” (2 Co 7:11). Eles agiram com zelo veemente e desagravo em prol da glória do Senhor.

2)        A santidade na Assembleia deve ser mantida - Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, a assembleia é lugar da habitação de Deus (Ef 2:22). Ela deve ser mantida como um lugar adequado para a Sua santa presença. O Senhor habita no meio do Seu povo reunido ao Seu nome (Mt 18:20) e, portanto, a assembleia deve manter o mal fora do seu meio para que continue a ser um lugar adequado para Sua presença. “A santidade convém à Tua casa, SENHOR, para sempre” é um princípio que é verdadeiro em cada dispensação (Sl 93:5). “O que usa de engano não ficará dentro da Minha casa” (Sl 101:7; 1 Co 3:17; Nm 5:1-4). A segunda razão é o caráter de fermento do pecado. A Escritura ensina que a associação com o mal contamina. O apóstolo Paulo disse: “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa” (1 Co 5:6-8; Gl 5:9-12). Se a assembleia não afastar o mal de seu meio, não demorará muito para que outros sejam afetados por esse mal, porque “as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Co 15:33).
3)        A Correção e Restauração do Ofensor - A ação da assembleia de colocar alguém fora da comunhão também deve ter em vista o bem da pessoa que erra. Ela é posta para fora da convivência, e não devemos nos socializar com ela, para que possa ser contristada para arrependimento e restaurada para o Senhor. “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Co 5:11). Isto se refere à nem mesmo fazer uma simples refeição com a pessoa. Quando a pessoa estiver arrependida e tiver julgado o seu pecado, a assembleia irá recebê-la de volta à comunhão. O apóstolo Paulo disse: “Basta-lhe ao tal esta repreensão feita por muitos. De maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza. Por isso vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor” (2 Co 2:6-8). Esta é uma ação administrativa de desligamento da assembleia (Mt 18:18).

A Atitude Apropriada Da Assembleia Na Excomunhão

                 A assembleia deveria sempre tratar a questão como se o pecado fosse dela. A sua atitude em excomungar alguém deve ser de lamento, reconhecendo que eles falharam em não conseguir alcançar a pessoa quando esta estava caminhando rumo ao pecado. Isto é o que os coríntios não fizeram. Paulo lhes disse: “Estais ensoberbecidos, e nem ao menos vos entristecestes por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal ação” (1 Co 5:2). Cada um na assembleia deveria buscar em seu coração perguntando a si mesmo, “O que eu poderia ter feito para evitar a queda dessa pessoa?” Precisamos ver que temos parte nisso, em não termos pastoreado a pessoa adequadamente, ou não termos orado por essa pessoa o suficiente, etc. É sobre isso que se refere o comer a oferta pelo pecado (Lv 6:26).
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Resumo: Uma assembleia reunida biblicamente terá aqueles que irão assumir a liderança administrativa para garantir que a santidade e a ordem sejam mantidas.


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